Excerto de "Como se de uma fábula se tratasse".


 1-    Pastoral

      Foi numa noite de Natal, fria como nos contos de Natal, que a João recolheu a gatinha toda branca que revolvia os contentores do lixo próximos à Rua da Misericórdia, sita no Bairro Alto. Talvez tivesse contribuído para essa digna acção a efeméride, mais por ser a primeira consoada em que a rapariga estava longe de casa, do que o espírito generoso que se apregoa à mesma estar associada. Mas isso não sabemos, nem porventura viremos a saber um dia, certo é que o destino dos inúmeros sucessores da Natália, assim foi muito propriamente baptizada a felina em honra da quadra festiva, ficou para sempre marcado por este benemérito gesto da Maria João.

    A Natália andaria então pelos poucos meses de vida, e tinha uma cara esguia de feições famintas. O seu pêlo, mortiço da fome, manchava-se de cromas oriundos dos mais diversos tipos de porcaria urbana que se misturavam com a sarna que a acossava. Mas era toda branca, ou assim seria depois de lavada e bem tratada, e sê-lo não é assim tão vulgar nos gatos domésticos, muito menos nos que são domésticos e vadios, quiçá seja pelo facto destes serem recolhidos para os ambientes mais aconchegados dos lares humanos como aconteceu à nossa Natália. Assim, e mais uma vez, permaneceremos na ignorância de saber que teria feito a Maria João se a Natália fosse vulgarmente parda ou castanha ou negra, prometendo ser uma gata de ordinária beleza ou até de alguma fealdade. Todavia poderemos supor que aos gatos, como aos homens, sorri mais a vida aos que são tidos por belos. Duma simples variação cromática pôde, afinal, depender o recolhimento da gatinha ou o seu abandono a uma vida vadia a procurar sustento no lixo e a fugir aos cães ou humanos menos bondosos com os animais do que a nossa Maria João.
 
    Não ficou por muito tempo a Natália para os lados da capital. Logo depois da passagem de ano viajou dentro de um cestinho de verga e ao colo de sua dona – embora haja quem afirme que os gatos não têm dono – numa vulgar camioneta da carreira para casa dos pais da João, que viviam num monte de taipa nas Pedreneiras, bem longe de Lisboa (tendo como medida de distância aquela que vulgarmente se entende ser a dos gatos), e bem diferente nos modos de vida. Foi a gatinha acolhida num lar de que faziam parte, além dos progenitores da nossa benemérita rapariga, duas irmãs mais novas, dois cães de raça grande e ladradeira, quase sempre presos pelo facto de terem interiorizado a sua condição de ferozes animais de guarda à preciosa habitação cobiçada por todos os que se aproximavam e que não faziam parte da harmonia daquele lar, e o gato León, que haveria de ser o pai das dezenas de filhos da Natália, que até nisso o nome se verificou premonitório pelos imensos natais que gerou nestas bandas. Fez assim a bicha a viagem da cidade para o campo, inversa daquela que era então usual os humanos fazerem, mas que repunha alguma verdade à sua espécie, pelos menos a dar ouvidos a certas línguas que dizem que o verdadeiro lugar do gato é no campo e o resto uma simples degeneração, que os gatos ainda cá estarão quando acabarem as cidades e os homens, a ver vamos.

«voltar | home

biografia criticas cronologia literária obras publicadas adquirir links contacto