Excerto de "A fonte de Mafamede".


Os caminhos que então ligavam os portos de Tavira, Faro, Vila Nova de Portimão e Lagos ao Reino de Portugal eram tão acidentados e perigosos que os almocreves que levavam o pescado e as frutas para o Alentejo e dele tornavam com os animais carregados de trigo viajavam sempre juntos, pretendendo dessa forma proteger-se mutuamente contra as quadrilhas e alcateias que se camuflavam na serra algarvia. Alguns faziam um desvio por caminho ainda mais tortuoso para ir negociar em Benafátima, sítio tão ermo quanto sombrio, onde adquiriam mel, cera e peles.  Neste lugar, que não era mais que o somatório de uma dezena de casais dispersos num vale onde se adivinhava uma linha de água, toda a autoridade estava entregue ao prior Inofre, que não só cuidava do serviço religioso como recolhia a panóplia de rendas várias para entregar a seu primo Dom Vasco - dono ausente das terras-  e arbitraria a justiça em caso de necessidade. Era também de Inofre o sítio a que chamavam estalagem e onde pernoitavam e negociavam esses raros almocreves que, para além dos cavaleiros de Santiago que para aqueles lados iam caçar, eram as únicas visitas de Benafátima. Tirando o clérigo, seu escravo Bastião e o boticário Navarro, não havia memória de forasteiro ter ido viver para Benafátima, ou de algum dos seus habitantes realizar viagem maior que aquela que faziam anualmente à feira de Silves, não obstante um vago interesse do prior em organizar uma epopeica peregrinação a Santiago de Compostela. Apenas dois irmãos, Francisco e Domingos, se haviam um dia encantado com as histórias contadas pelos almocreves e partido com estes para tentar chegar a Lisboa e abalar na carreira da Índia, onde com todas as esperanças e perigos era permitido sonhar. Benafátima era assim como uma ilha cercada pelos perigos da serra - episodicamente era assaltada pelos bandos de malfeitores que sobreviviam de forma algo enigmática nas entranhas das florestas ou atacada em Invernos mais rigorosos por alcateias de lobos esfaimados que dizimavam o gado, sobretudo os suínos alimentados pela bolota abundante - ilha tão distante do reino quanto era a demora dos almocreves a transportar as novas ou a visita de Inofre ao primo Vasco, donde trazia sempre frescas ordens para o mando da terra. Apenas Mafamede, o velho e misterioso almocreve que se dizia ser tão velho quanto o lugar, visitava Benafátima solitariamente, aparecendo sempre quando mais ninguém o fazia. Depois de cumprimentar o padre Inofre dirigia-se para casa de Vicente e Ana, dos quais se dizia primo, e onde pernoitava.


Contudo, o prior desconfiava de Mafamede e não deixava escapar uma oportunidade de o presentear com enchidos e tiras de toucinho, a fim de testar a verdadeira crença do almocreve. Este nunca se fazia rogado e com tudo se banqueteava, demonstrando uma voracidade rara para um homem de sua idade, como também sempre se dirigia à modesta igreja de taipa para orar, peremptoriamente voltado para Jerusalém. Tais atitudes, porém, nunca tiraram as dúvidas de Inofre que sempre olhara para Mafamede com desconfiança. No entanto, subsistia no clérigo um medo inexplicável daquele velho homem que ninguém se lembrava de ter visto mais novo, e o prior acabava por se esquecer dos seus deveres ao escutar os sábios conselhos do almocreve para a sua horta, ou as notícias que este trazia da sua Évora distante. É que Inofre era o filho mais novo de uma tal Simoa de Ataíde, viúva de um capitão da Índia, a quem, como era de sina em filho derradeiro, fugia a fortuna familiar. Viu-se assim empurrado para a carreira eclesiástica, ainda por mais naquele local tão distante da sua Évora cosmopolita, ainda para mais graças a uma intervenção generosa do primo Dom Vasco Cogominho. Mas Inofre não era, na verdade, destinado a tal serviço, sobretudo naqueles tempos em que lhe era pedida redobrada atenção para localizar com eficácia todos aqueles que escapavam aos ditames da fé cristã. Pelo contrário, Inofre era propenso a fugir dos problemas como o diabo da cruz. O certo é que fosse por desleixo profissional, fosse por simples distracção humana, o prior fechava os olhos a muito do que sucedia à sua volta, designadamente ao mau feitio do boticário Navarro, cristão-novo que ali chegara um dia a acompanhar Mafamede, que assim pretendera trazer para a terra homem de mester que ali ainda não existia, embora todos duvidassem se seria necessário.

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