Excerto de "No País das porcas-saras".

Na altura em que o Avelino levou a alcofa e o babygrow para a sua filha, a pensar que era um filho, já esta tinha alcofa e babygrows e carrinho e mais uma panóplia de apetrechos e utensílios vários indispensáveis para os bebés do mundo ocidental.

Quase todos envelhecidos e puídos, pois tinha-os herdado dos primos Fábio e Fabrício. Pela mesma razão eram quase todos azuis, já que se entende culturalmente que o azul é cor macha e viril que contrasta com o rosa feminino e sensível. O toque varonil foi, no entanto, temperado com as rendinhas e bordados que as mãos enternecidas da Elvira criaram para a sua sobrinha. Esta era a filha que lhe faltava. Ah, como gostaria a Elvira de continuar a ter filhos, já disso aqui se fez referência. E uma filha, então!, como uma menina a deixaria feliz! E não era por ela, Elvira, que não vinham mais filhos, que ela ainda tinha serventia. O seu António é que já não se entusiasmava. Era tão raro ele estar para aí virado que coincidir um desses apetites com uma disponibilidade fértil da mulher era algo altamente improvável do ponto de vista matemático e daria uma daquelas contas complicadas até para a cabeça da Eleonora. Os entusiasmos do António andavam fora de casa, ela percebia-o bem e, verdade se diga, aquele homem também não lhe despertava já qualquer desejo. Não que não os tivesse. Tinha-os, não percebia se por alguém, e até se envergonhava disso. Às vezes dava-lhe ganas de ir lá mexer com o dedo, mas resistia. Avermelhava, desesperava, mas ficava queda. E ultimamente até lhe tinham aparecido uns sonhos esquisitos e andava com receio de sonhar alto, não fosse o António dar por isso e voltar ao tempo das porradas, ai só de se lembrar ficava com medo do agoiro! Acordou algumas vezes a meio da noite, toda suada. Ai que este corpo não tem paramento, que mal fiz eu a Deus para ser assim?

O Avelino, no seu regresso às Courelas das Pereiras foi encontrar a família reunida. Desculpou-se do seu desaparecimento em Beja, é que tinha ficado tão aflito com o sofrimento da Esperancinha, aquilo dera-lhe uns grandes nervos e ele não foi capaz de ficar para ver o que parecia. É que lhe parecia que a mulher iria falecer (à Esperancinha confortou-lhe a ideia de que um dia faleceria em vez de simplesmente morrer, ai este meu homem diz coisas tão bonitas). Só lhe apeteceu foi fugir. Sentiu um medo terrível de perder a mulher que amava e com quem queria ficar até ao fim dos seus dias e quis deixar tudo para trás, caminhar até ao fim do mundo (por esta altura o seu discurso quebrou-se, engoliu em seco, gaguejou ligeiramente, até uma lagrimazinha envergonhada brilhou ao canto do olho). E depois, quando recuperou a coragem e regressou ao hospital já a Esperancinha tinha saído. Viva, tal como o filho de ambos. Pedia muita desculpa a todos (aqui acalmou-se, a excitação do discurso passara-lhe, chegara o momento da solenidade), e aproveitava para agradecer àquela família que agora era a sua e que o recebera e tratara como um filho. Pois ali estava ele, o pai do Gonçalo – “afinal Gonçala”, sorriu –, para exercer na “plenitude” a sua “paternidade”. As últimas palavras foram ditas com convicção e cagança teatral, tendo causado grande impressão em toda a família – plenitude, o que é isso? –, especialmente na sua Esperancinha (como ela gostou do “paternidade”), feliz por ter o seu homem de regresso e para sempre, até que o falecimento de um deles os separasse.

Ao António não lhe caíram bem as palavras caras que o cunhado pronunciou, que o António andava ressabiado com o Avelino desde que tivera de acabar de caiar sozinho a casa da mãe, “o gajo é um filho da puta de um tretas, um algarvio de merda, são todos iguais estes gajos”, afirmaria depois por entre duas cuspidelas de celulose. Ninguém sabia muito bem onde é que o António tinha ido buscar aquele ódio aos algarvios, mas sempre que alguma coisa corria particularmente mal, lá apanhavam os algarvios com a culpa e o Avelino até já tinha dito uma vez que era de Moncarapacho, terra que ficava lá para o Algarve.

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